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O nome mudou na porta antes de mudar na empresa

Por Ernesto Haberkorn · · 4 min de leitura

Imagem ilustrativa gerada com IA

Numa sexta-feira de setembro, uma empresa de família trocou a placa da sala da presidência, imprimiu um cartão de visita novo para a filha do fundador e publicou, nas redes sociais, a foto de um aperto de mãos entre pai e filha, com a legenda de praxe sobre uma nova fase. Na segunda-feira seguinte, antes das nove da manhã, a presidente recém-empossada telefonou para o pai perguntando se podia aprovar, no sistema de gestão da empresa, a compra de duas resmas de papel e um programa de design que juntos custavam menos de dois mil reais.

Sucessão empresarial, no Brasil, costuma seguir um rito bem conhecido por quem já viu de perto algumas dezenas delas: a casa toda muda de nome oficial, da porta da sala ao rodapé do e-mail corporativo, mas continua obedecendo à mesma pessoa sempre que o valor em jogo ultrapassa um certo limite invisível que ninguém definiu por escrito, mas que todo funcionário antigo da casa sabe de cor. O cargo de presidente, nessas empresas, carrega todos os poderes previstos no estatuto social, com uma única exceção relevante: o de assinar uma ordem de compra sem telefonar antes para alguém que, oficialmente, não trabalha mais ali.

Não que o fundador aja de má-fé ao manter esse controle. Na maioria dos casos que acompanhei ao longo de décadas lidando com empresários e seus herdeiros, o motivo é bem mais comum e bem mais humano do que qualquer teoria de poder explicaria: ele passou a vida inteira sendo a pessoa que resolvia, e uma vida inteira resolvendo não se desliga com uma cerimônia de posse, por mais bonita que tenha sido a foto, do mesmo jeito que avós dão conselho mas fundadores, por hábito antigo, preferem aprovar orçamento. A experiência acumulada em décadas de decisões continua tendo valor real mesmo depois de formalmente aposentada do comando direto, e é justamente esse valor real que torna a situação mais complicada do que um simples apego a poder: o que decide se uma sucessão vingou, ou se ficou só no cartão de visita, é saber se aquela experiência aparece quando chamada, como conselho pedido, ou se aparece sempre, como veto automático, mesmo quando ninguém perguntou nada.

Esse hábito custa caro na prática, porque a empresa que o mantém paga um preço que não aparece em nenhuma linha do balancete: o sucessor talentoso que, depois de alguns anos adiando decisões pequenas até conseguir falar com o pai, decide que prefere construir a própria autoridade em outro lugar, onde ela valha de verdade desde o primeiro dia. Conheci mais de um herdeiro capaz que saiu da empresa da família não porque discordasse da visão do fundador, mas porque descobriu que o cargo que ocupava tinha nome de presidente e orçamento de estagiário, condição difícil de sustentar por muito tempo para quem já provou, em outro lugar, que sabe decidir sozinho.

Há uma diferença que vale a pena marcar entre o fundador que continua presente porque a empresa pediu, numa decisão realmente grande, de aquisição ou de crise, deixando atrás de si uma herança bem aproveitada, e o fundador que continua presente porque nunca testou, nem uma vez, o que aconteceria se simplesmente não atendesse ao telefone, deixando atrás de si uma sucessão que só existe na placa da porta, esperando, de braços cruzados, o dia em que alguém finalmente vai resolver sem perguntar.

Existe sempre uma segunda-feira comum, sem cerimônia e sem placa nova, em que a sucessão de uma empresa realmente se completa, quase sempre bem depois da data bonita gravada na porta. Vale notar, na empresa de cada um, qual segunda-feira dessas ainda está para acontecer.

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