Quando foi a última vez que a sua empresa abriu uma vaga para alguém que não sabia fazer nada daquilo que o cargo pedia, só para que, dali a alguns anos, essa pessoa soubesse? A pergunta incomoda um pouco porque a resposta, para boa parte dos negócios brasileiros hoje, está ficando mais distante no calendário, e o motivo não é falta de dinheiro nem de vaga disponível: é que a tarefa que se dava ao principiante, aquela mesma tarefa repetitiva, cansativa e cheia de pequenos detalhes que ninguém mais graduado tinha paciência de resolver, passou a ser entregue em segundos por um software de inteligência artificial que não reclama, não erra feriado e não pede aumento no fim do ano.
Resumir contrato, triar currículo, organizar planilha de estoque, escrever a primeira versão de um relatório que o chefe ia corrigir de qualquer jeito: esse tipo de trabalho sempre teve duas funções na vida de uma empresa, uma visível e outra que raramente aparecia em qualquer descrição de cargo. A visível era produzir aquele resultado específico, modesto e barato. A invisível, bem mais valiosa a longo prazo, era formar, devagar e sem cerimônia, alguém que ia aprendendo o negócio pela base, erro atrás de erro, até enxergar a empresa inteira por dentro, do jeito que só se aprende fazendo primeiro a parte chata.
Ninguém decretou, em ata de reunião, o fim do cargo de aprendiz. A ata só registrou, com entusiasmo, uma redução de custo.
O problema é que nenhuma ata registra, do outro lado da mesma conta, o que deixou de ser formado enquanto a tarefa era economizada. Dentro de alguns anos, a empresa vai precisar de alguém que entenda o negócio de cabo a rabo, que saiba por que um cliente específico sempre atrasa o pagamento ou por que um fornecedor nunca cumpre o prazo combinado, detalhes que não estão em nenhum manual e que só se aprendem trabalhando dentro da bagunça real da operação, não lendo o resumo elegante que a inteligência artificial preparou sobre ela.
Vi de perto, ao longo de décadas lidando com tecnologia e com empresas, mais de uma onda prometer resolver de uma vez aquilo que antes exigia gente aprendendo com calma, e todas elas, sem exceção, cumpriram bem a promessa da tarefa e esqueceram-se, satisfeitas, da pessoa que deveria ter crescido fazendo aquela tarefa. A diferença é que as ondas anteriores eliminavam um posto aqui, outro lá, deixando ainda alguma porta de entrada aberta em algum canto da empresa. Esta onda parece mais ambiciosa: ataca justamente a porta de entrada, o primeiro degrau, o lugar onde qualquer gestor de hoje, inclusive este que escreve, um dia aprendeu a subir.
Não existe nada de errado em uma empresa economizar numa tarefa que um software resolve melhor, mais rápido e sem reclamar; a conta, vista de perto, costuma fechar mesmo. O que vale observar é que essa conta só mede o lado da tarefa, nunca o lado da formação, e por isso é fácil fechá-la no verde durante anos seguidos sem perceber que o verde some exatamente no momento em que a empresa precisa de alguém que conheça a casa por dentro e descobre que ninguém, há algum tempo, estava sendo formado para isso.
Em algumas empresas, a cadeira do aprendiz já está vazia, computador novo e tela ligada, mas sem ninguém sentado aprendendo a empresa por dentro, e o lugar continua assim até o dia em que alguém, com urgência, precisar de uma pessoa que conheça a casa como só conhece quem começou lá embaixo, cuidando da tarefa chata que a inteligência artificial resolveu primeiro.