Saúde
Como envelhecer
Sono interrompido, alimentação, exercício físico, os remédios do geriatra e a importância de deixar um legado — um texto bem-humorado sobre os desafios (e prazeres) de envelhecer bem.
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Imagem ilustrativa gerada com IA
Noventa e quatro por cento dos empreendedores brasileiros já atravessaram, em algum momento do negócio que decidiram tocar, um episódio de ansiedade, depressão ou esgotamento, segundo um levantamento recente sobre saúde e desempenho de quem empreende no país. O número impressiona pelo tamanho, mas impressiona menos pela novidade: quem já administrou uma empresa sabe, por experiência e não por pesquisa, que esse percentual só não seria maior porque cem por cento seria difícil de defender num relatório.
A mesma pesquisa aponta a causa mais citada para esse desgaste: problemas financeiros da própria empresa, à frente de brigas entre sócios e de cobranças da família, que também fazem sua parte. Achei o resultado curioso por um motivo específico, ligado à fatia da vida que passei diante de telas tentando ensinar empresas a enxergar a própria realidade com precisão: hoje qualquer dono de negócio, por menor que seja a operação, abre um painel no celular e sabe, antes do café da manhã, quanto vendeu ontem, quanto sobrou em caixa e quanto falta pagar até sexta-feira. A mesma pessoa raramente sabe, com igual precisão, quantas horas dormiu na última semana ou há quanto tempo não faz um exame de sangue completo.
Ajudei a construir, ao longo de décadas, sistemas que hoje avisam, em tempo real, quando o estoque de um produto está acabando, quando uma conta vai vencer sem saldo para cobri-la ou quando a margem de uma linha caiu abaixo do combinado. Esses avisos existem porque alguém, um dia, decidiu que a empresa não podia mais operar no escuro, dependendo de memória e de intuição para saber se ia bem. Intrigante é que o mesmo empresário que exige esse nível de exatidão da própria empresa aceita, sem reclamar muito, viver no escuro a respeito de si mesmo. Trabalha até mais tarde porque "o negócio pede". Dorme mal e chama isso de fase. Adia o check-up porque, segundo a lógica implacável do próprio calendário, sempre existe um fechamento de mês mais urgente do que um exame de sangue, e esse fechamento, de um jeito ou de outro, nunca termina de vez.
A aritmética da empresa, hoje, é íntima: cada centavo tem endereço, cada hora de produção tem custo apurado, cada cliente carrega um valor calculado até a segunda casa decimal pelo sistema que o próprio dono mandou instalar. Da própria saúde, esse dono costuma ter apenas uma frase vaga, do tipo "ando meio cansado", que, traduzida para a linguagem dos relatórios que ele mesmo cobra da empresa, seria descartada na hora por falta de fonte confiável. Todo negócio tem uma conta que não fecha no fim do mês: a da saúde de quem o comanda, lançada sempre para o mês seguinte.
O problema de deixar esse indicador sem dono é que ele não desaparece só porque ninguém o mede. Aparece de outro jeito, mais caro e mais difícil de rastrear até a origem: as ações trabalhistas por síndrome de burnout cresceram cerca de 15% no país em pouco mais de um ano, somando bilhões em indenizações que nenhuma planilha de custos previu como linha de despesa, e o Brasil hoje figura entre os países com mais casos de esgotamento no mundo, atrás apenas do Japão. Esse custo também aparece na decisão importante tomada depois de três noites maldormidas, na reunião em que a impaciência substitui o argumento, na sucessão empresarial adiada porque o fundador não consegue admitir, nem para si mesmo, que talvez devesse soltar um pouco o volante antes que o próprio corpo o obrigue a isso de um jeito bem menos gentil.
Fico imaginando, de vez em quando, o dia em que alguém finalmente construir, para o dono do negócio, um painel parecido com o que a empresa já tem para si mesma: um número simples, visível logo ao ligar o computador pela manhã, mostrando há quanto tempo aquela pessoa não dorme oito horas seguidas ou não vê um médico. Desconfio que pouca gente quisesse de fato olhar para esse número todos os dias. Talvez seja exatamente por isso que ele continua sem existir.
Este texto reflete os princípios NETAS: Natureza, Esporte/Educação, Trabalho, Amor e Saúde.
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