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Quem vai fazer as contas da inteligência artificial?

Por Ernesto Haberkorn · · 3 min de leitura

Imagem ilustrativa gerada com IA

Comprar uma tecnologia nova é sempre a parte fácil da conta de uma empresa; a parte difícil chega meses depois, quando alguém pergunta, baixinho, quanto aquilo voltou, e o silêncio na sala costuma responder com mais sinceridade do que qualquer slide de lançamento.

Um estudo divulgado neste mês de outubro, encomendado pela TOTVS à MIT Sloan Management Review Brasil e apresentado no Universo TOTVS 2026, em São Paulo, ouviu 583 empresas brasileiras e chegou a uma conclusão que não deveria surpreender quem já administrou alguma coisa na vida: 80% delas já usam inteligência artificial em algum processo do negócio, mas 86% não sabem dizer quanto esse uso custou, e 88% não sabem quanto ele devolveu em resultado financeiro.

Nada nisso é particularmente novo, trocando-se apenas o nome da tecnologia da vez. Computador, internet, sistema de gestão, qualquer novidade que chegou à empresa brasileira nas últimas décadas foi recebida com o mesmo entusiasmo na hora de comprar e a mesma relutância na hora de medir o que ela de fato trouxe, porque anunciar a chegada é rápido e rende boa foto, e fazer a conta do retorno é devagar, exige dado confiável e não aplaude ninguém. A inteligência artificial aprendeu a responder ao cliente antes de a empresa aprender a responder, com o mesmo rigor, à própria diretoria.

O problema não nasce na tecnologia, que costuma fazer bastante bem aquilo que promete fazer: nasce no hábito antigo de uma empresa só aprender a medir depois que o custo de não medir já apareceu em algum outro lugar, geralmente mais caro do que teria sido a própria medição. Uma empresa que nunca soube calcular com precisão o retorno de uma campanha de marketing, de um treinamento de equipe ou de uma reforma na loja não vai, de repente, calcular com precisão o retorno de um software que promete pensar; vai apenas confiar, com a mesma fé de sempre, que a coisa certamente está valendo a pena, porque todo mundo ao redor parece achar o mesmo.

Vale reparar que o problema sequer pede solução complicada: pede só a disciplina pequena e chata de anotar, antes de começar qualquer investimento, quanto ele custa e o que, em número, vai contar como sucesso lá na frente, para que exista depois alguma base de comparação além do entusiasmo do dia do lançamento. É a mesma disciplina que qualquer área da empresa deveria ter desde sempre, e que a novidade da vez só torna mais visível, porque poucas coisas expõem com tanta nitidez a ausência de um controle antigo quanto a chegada de uma tecnologia nova e cara, cercada de gente disposta a jurar, de boca cheia e planilha vazia, que ela já se pagou sozinha.

A inteligência artificial vai aprender, mais rápido do que qualquer funcionário novo, a fazer quase tudo que uma empresa pedir a ela. A única coisa que não vai aprender sozinha é a fazer a empresa perguntar, de vez em quando, se valeu a pena.

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