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O capim atrás do galpão

Por Ernesto Haberkorn · · 3 min de leitura

Imagem ilustrativa gerada com IA

Toda empresa com um terreno de algum tamanho tem um canto que ninguém visita: atrás do galpão, depois da última fileira de paletes vazios, onde o capim cresce à vontade porque nenhuma etapa da operação depende daquele metro quadrado. É um abandono sem culpado e sem data marcada no calendário, do tipo que se instala devagar demais para que alguém o perceba a tempo de evitar, e se acumula, mês somado a mês, rápido demais para que alguém o resolva depois sem chamar uma empresa de jardinagem.

A zeladoria de qualquer empresa segue uma lógica mais simples do que parece: cuida-se bem do que recebe visita. A recepção é varrida todos os dias, a sala de reuniões ganha flor fresca na mesa quando vem cliente grande, o showroom nunca fica com produto fora do lugar, e a vaga reservada à diretoria é sempre a primeira a ganhar asfalto novo. O resto da propriedade, aquilo que nenhum visitante atravessa, vive sob um regime de manutenção que poderia ser chamado de democrático, porque trata com igual descaso tudo que está fora do roteiro de visita.

Vi essa mesma cena se repetir, com variações pequenas, em empresas de portes bem diferentes, ao longo de décadas implantando sistema de gestão: o mesmo abandono acontece, por dentro, com a informação que a empresa guarda. Há cadastro de cliente que nenhum vendedor atualiza desde que o próprio cliente trocou de telefone duas trocas de aparelho atrás, produto descontinuado que continua vivo no sistema porque ninguém teve paciência de encerrá-lo formalmente, conta a receber que segue aberta num relatório porque fechar aquele relatório dá mais trabalho do que simplesmente ignorá-lo. Nenhum desses detalhes chega à reunião de resultado, pela razão óbvia de que resultado se mede pela parte do negócio que todo mundo olha, e o que ninguém olha não entra em pauta até o dia em que precisa entrar.

Auditor externo tem a vantagem indiscreta de ser a única visita que insiste em caminhar até o fundo do terreno. É ele quem encontra o cadastro fantasma, a nota fiscal sem baixa, o estoque que o sistema garante existir e que o depósito, fisicamente, desconhece. A reação mais comum, nesse momento, não costuma ser de surpresa; é um alívio estranho, quase estudantil, de quem finalmente foi pego fazendo exatamente aquilo que vinha evitando fazer havia anos.

O custo de um canto esquecido quase nunca aparece como despesa isolada no balancete: aparece disfarçado de outra coisa, na hora extra gasta procurando uma informação que devia estar a um clique de distância, ou na decisão tomada com a certeza errada porque aquele número específico vinha de uma planilha que três pessoas diferentes alimentavam, cada uma à sua maneira, há meses sem conversar entre si. Diferente do capim, que ao menos avisa de longe que cresceu, a desorganização de dados cresce muda, sem copa e sem galho para chamar a atenção de quem passa perto.

Quem administra uma empresa decide, todos os dias e quase sempre sem perceber, qual parte do negócio recebe atenção e qual fica entregue à própria sorte: a diferença entre as duas quase nunca é escolha deliberada, é só o trajeto por onde a visita de hoje não passou. Fechar o portão satisfeito com o jardim da frente é fácil. O difícil é lembrar, de vez em quando, que existe um fundo.

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