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Inteligência artificial de palco, bagunça de bastidores

Por Ernesto Haberkorn · · 3 min de leitura

Imagem ilustrativa gerada com IA

Num evento sobre empreendedorismo, agora em setembro, ouvi um empresário contar ao microfone que a empresa dele "já nasceu com inteligência artificial no sangue", frase que rendeu aplauso educado e uma foto para os stories da assessoria de imprensa. Vinte minutos depois, encontrei o mesmo empresário nos bastidores, ao telefone, pedindo à filha que cuida do financeiro que mandasse de novo, por favor, a planilha do fechamento do mês, porque a versão salva no computador dele não batia com a que o contador estava usando. Ninguém tirou foto daquele momento, e é uma pena, porque ele explicava a empresa com muito mais precisão do que o discurso do palco.

Uma pesquisa divulgada agora em setembro, feita para uma grande provedora de nuvem, estimou que metade das empresas brasileiras já usa algum tipo de inteligência artificial. O número parece motivo de comemoração até a segunda frase da pesquisa aparecer: a maior parte dessas empresas ainda está num estágio elementar de uso, e só uma fração pequena chegou a um estágio mais avançado. Ou seja, a tecnologia chegou primeiro à recepção do que à sala de reuniões, que é exatamente onde ela costuma ficar quando a empresa se apressa a comprar uma ferramenta antes de resolver o que já estava errado sem ferramenta nenhuma.

Sou suspeito para falar mal de tecnologia, porque passei boa parte da vida programando sistemas antes de existir um nome bonito para isso, mas talvez seja exatamente por ter visto a informática desde o começo que enxergo com clareza um problema que se repete a cada onda nova: a inteligência artificial não organiza escritório nenhum sozinha, do mesmo jeito que um computador não organizava nos anos setenta e um sistema de gestão não organiza hoje. Ela só amplifica o que já existe debaixo dela. Se a empresa tem números que concordam entre si, aprende rápido e ajuda de verdade. Se a empresa tem três versões da mesma planilha circulando por e-mail, aprende essa bagunça com uma velocidade impressionante e devolve a resposta errada com uma confiança de dar inveja a qualquer gestor inseguro.

A inteligência artificial não inventou a empresa que finge saber o que não sabe. Deu a ela apenas um jeito mais elegante de fingir.

Existe uma diferença enorme entre a empresa que compra inteligência artificial e a empresa que já tinha, antes da compra, uma noção clara de quanto vendeu ontem, quanto ficou parado no estoque e quanto sobrou de caixa no fim do mês. A primeira ganha um relatório mais rápido do mesmo erro que já cometia devagar. A segunda ganha, de fato, uma vantagem, porque está alimentando a máquina com verdade, e verdade é a única matéria-prima que nenhum algoritmo sabe fabricar sozinho quando falta na origem.

Tenho um certo carinho por essa fase que estamos vivendo, porque ela expõe com uma clareza incômoda aquilo que sempre foi verdade e que a maioria das empresas preferia não olhar de frente: dado ruim não vira dado bom por passar por um sistema mais moderno, do mesmo jeito que discurso bonito no palco não vira operação organizada nos bastidores só porque alguém aplaudiu.

Antes de anunciar, no próximo evento, que a empresa já usa inteligência artificial, fica a pergunta mais modesta, e por isso mesmo mais difícil de responder direito: se alguém perguntasse agora, sem aviso, o número exato do estoque ou do caixa daquela empresa, quantas ligações internas, e quantos pedidos de "me manda de novo a planilha", seriam necessários até dois setores da própria casa concordarem sobre a resposta.

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