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A única peça da empresa sem revisão agendada

Por Ernesto Haberkorn · · 3 min de leitura

Imagem ilustrativa gerada com IA

O quadro de manutenção pendurado perto do almoxarifado de qualquer empresa de porte razoável obedece a uma lógica rígida por trás de cada etiqueta colorida: nenhum equipamento crítico pode depender de uma unidade só. Por isso há sempre mais de um extintor, mais de um gerador e mais de uma cópia dos dados que sustentam o faturamento do mês, cada um pronto para assumir o posto caso o outro falhe. A engenharia de infraestrutura tem até um nome técnico para o componente que não segue essa regra, aquele cuja pane sozinha derruba o sistema inteiro: ponto único de falha.

Nenhuma empresa desenha o próprio organograma marcando, ao lado do nome de quem a fundou, a mesma observação que um engenheiro faria sem pestanejar diante de um equipamento nessas condições. Reconhecer isso custaria admitir que o negócio inteiro pode parar por causa de uma manhã ruim na agenda médica de uma única pessoa, e nenhuma empresa gosta de carregar um risco que não sabe, nem sob medida, como substituir.

O problema costuma ser mais agudo justamente nas empresas que cresceram em torno de uma única pessoa, o que descreve boa parte dos negócios brasileiros de porte médio: o fundador que carrega, só na própria memória, a senha de acesso, o contato certo dentro do banco e o motivo real por trás de cada decisão tomada nos últimos vinte anos. Formalizar esse tipo de conhecimento é tarefa pouco vistosa, que raramente rende apresentação em reunião de diretoria, e por isso fica, com frequência, para quando sobrar tempo, expressão que, na prática, costuma significar nunca.

A empresa testa o gerador uma vez por mês só para garantir que ele liga sozinho quando a energia cai. Ninguém jamais testou o que acontece quando quem decide fica um mês inteiro fora de ação.

Novembro chega todo ano com a mesma campanha e a mesma cor na lapela de quem se lembra de usá-la, pedindo uma coisa que não tem nada de extraordinário: uma manhã e um exame de sangue, às vezes acompanhado de um toque que poucos homens gostam de receber. O que costuma faltar é um plano que trate essa manhã como a empresa trata qualquer outra interrupção prevista: algo que se agenda, se cobre e se testa antes de virar emergência.

Esse tipo de risco raramente se revela enquanto a saúde aguenta a rotina. Fica visível no dia em que a senha do sistema financeiro só o dono sabia e o plano de sucessão redigido pelo advogado da família nunca foi posto à prova contra a hipótese mais banal de todas: o fundador fora de ação, sem aviso, bem no meio de uma negociação que não podia esperar.

Há uma ironia que vale registrar sem exagero: a cobertura de saúde mais completa do prédio costuma ser a que a própria empresa oferece aos funcionários, com carência zero para check-up e campanha interna todo mês de novembro; a cobertura equivalente do dono, quando existe no papel, raramente existe na agenda, tratada com a mesma displicência reservada a qualquer benefício que se imagina nunca precisar usar.

No organograma de boa parte das empresas brasileiras, toda caixa tem ao lado uma linha pontilhada indicando quem assume em caso de ausência, com uma exceção quase sempre silenciosa: a caixa do topo, a única que segue sem substituto nomeado e sem plano testado para o dia em que, por qualquer motivo, ela simplesmente não puder responder.

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